Levantamento com dados entre setembro de 2024 e setembro de 2026 aponta cruzamento da Avenida Itaquera como o mais recorrente e identifica 60 trechos com alta suscetibilidade a novos alagamentos
A cidade de São Paulo registrou 1.342 ocorrências de alagamentos em vias públicas entre 23 de setembro de 2024 e 22 de setembro de 2026. A análise mostra que alguns pontos da capital enfrentaram o problema repetidamente, principalmente em áreas da Zona Leste.
O levantamento, realizado pela Crime Brasil para a Gazeta de S. Paulo, analisou registros do Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas de São Paulo (CGE-SP) e cruzou as informações com dados de hidrografia, relevo e áreas inundáveis.
Entre as 1.342 ocorrências analisadas, 59% deixaram as vias intransitáveis.
O CGE classifica como intransitável o alagamento que ocupa todas as pistas e impede completamente a circulação de veículos. Os registros do órgão são alimentados principalmente por agentes de campo ligados ao trânsito e têm maior foco nas principais vias e corredores da cidade. Cgesp
Avenida Itaquera aparece no topo das ocorrências
O ponto com maior recorrência no período analisado fica na Avenida Itaquera com a Rua Campinas do Piauí, em Itaquera.
Foram registrados alagamentos em 15 dias diferentes. Em 60% das ocorrências, a via ficou intransitável.
Na sequência aparecem dois trechos da Avenida Marechal Tito, no Itaim Paulista. Cada um teve ocorrências em 14 dias diferentes.
O levantamento contabilizou dias com ocorrências, e não simplesmente a quantidade bruta de registros. Isso evita que vários registros no mesmo local e no mesmo dia distorçam a comparação.
Veja os pontos com maior recorrência
Os dez trechos e cruzamentos destacados no levantamento são:
- Avenida Itaquera x Rua Campinas do Piauí, Itaquera — 15 dias
- Avenida Marechal Tito, altura do nº 7.557, Itaim Paulista — 14 dias
- Avenida Marechal Tito, altura do nº 5.394, Itaim Paulista — 14 dias
- Avenida Santo Amaro x Avenida Roque Petroni Jr., Santo Amaro — 12 dias
- Rua Padre Viegas de Menezes x Rua Itagimirim, Itaquera — 11 dias
- Rua Presidente Batista Pereira x Avenida do Estado, Ipiranga — 10 dias
- Avenida Alcântara Machado x Viaduto Guadalajara-João Behisnelian, Mooca — 9 dias
- Viaduto Presidente João Goulart x Avenida Pacaembu, Sé — 8 dias
- Avenida Jacu-Pêssego x Avenida Ragueb Chohfi, São Mateus — 8 dias
- Avenida Professor Francisco Morato x Praça Paula Moreira, Butantã — 8 dias
A recorrência não significa, necessariamente, que todos esses pontos apresentem a mesma gravidade.
Na Rua Padre Viegas de Menezes com a Rua Itagimirim, por exemplo, 90,9% dos registros deixaram a passagem intransitável.
O mesmo percentual foi identificado na Rua Presidente Batista Pereira com a Avenida do Estado.
Sé lidera entre as subprefeituras
Quando os dados são agrupados por subprefeitura, a Sé aparece com a maior quantidade de ocorrências: 164 registros distribuídos em 62 dias.
Depois aparecem Lapa, Pinheiros, Mooca e Itaquera.
A Lapa registrou 119 ocorrências em 51 dias. Pinheiros teve 96 em 45 dias. Mooca contabilizou 87 em 45 dias, enquanto Itaquera teve 87 registros distribuídos em 39 dias.
Os dados revelam uma diferença importante: a área com maior quantidade total de registros não é necessariamente aquela que possui o cruzamento com maior recorrência.
Itaquera, por exemplo, aparece na quinta posição entre as subprefeituras, mas possui o ponto que mais registrou dias com alagamentos em toda a cidade.
Itaim Paulista lidera entre os distritos
Na divisão por distritos, o Itaim Paulista aparece na primeira posição em número absoluto, com 57 ocorrências.
Na sequência estão Bom Retiro, com 53; República, com 39; Santana, com 35; e Barra Funda, com 31.
O dado de Santana chama atenção para a Zona Norte, que também aparece entre as regiões afetadas pelo problema.
Quando os números são ajustados pela população residente, o cenário muda. O Bom Retiro apresenta 158,1 ocorrências por 100 mil habitantes. Barra Funda aparece com 92,7 e Alto de Pinheiros com 83.
Essa comparação precisa ser interpretada com cuidado, já que distritos com populações menores podem apresentar taxas mais elevadas mesmo com uma quantidade absoluta inferior de ocorrências.
Estudo aponta 60 possíveis novos pontos críticos
Além de analisar o histórico, o levantamento criou um índice de suscetibilidade a alagamentos para 10.200 segmentos oficiais de vias da cidade.
Foram considerados quatro fatores, cada um com peso de 25%: proximidade de cursos d’água, localização em planície inundável, baixa cota de relevo em comparação ao entorno e histórico recente de alagamentos nas proximidades.
A análise encontrou 60 trechos classificados com alta suscetibilidade, mas que não apresentaram histórico relevante de alagamentos durante o período estudado.
O levantamento chama esses locais de candidatos a novos pontos críticos.
No entanto, a classificação não significa que essas ruas necessariamente irão alagar. Trata-se de um indicador estatístico baseado nas características avaliadas.
Veja alguns dos trechos com maior índice
Entre os locais que receberam os maiores índices de suscetibilidade estão a Rua Una com a Rua Marquês de Leão, na Bela Vista; Rua Itapaiúna, na Vila Andrade; Rua Caiubi, em Perdizes; Travessa Araraquara com Rua Custódio, na Cidade Ademar; e Rua Bonifácio Pasquali, no Jardim Ângela.
Também aparecem Rua Monlevade com Praça Nagib Ganme, na Bela Vista; Avenida Eliseu de Almeida com Avenida Jacob Salvador Zveibil, na Vila Sônia; Rua Alfredo Gagliotti com Rua Álvaro de Carvalho, na República; Rua Porto de Palos, em Pirituba; e Avenida Luiz Gomes Cardim Sangirardi, na Vila Mariana.
A Rua Una, por exemplo, está sobre um curso d’água e apresenta depressão de relevo de aproximadamente 25 metros, segundo o levantamento.
Já a Rua Itapaiúna também está sobre um córrego e apresenta depressão de cerca de 22 metros em relação ao entorno.
Modelo foi testado com ocorrências de 2026
Para avaliar o desempenho do índice, os responsáveis pelo levantamento utilizaram dados de alagamentos de 2026 como período de teste.
Esses registros não foram utilizados inicialmente para construir o modelo.
O resultado mostrou que 29,9% das ocorrências de 2026 estavam dentro dos 10% de segmentos classificados como mais suscetíveis.
Em uma distribuição aleatória, a expectativa indicada pelo estudo seria de 10%.
Ainda assim, o resultado deve ser interpretado como um indicador estatístico. Ele não permite afirmar que determinado endereço sofrerá um alagamento no futuro.
Volume de chuva não é o único fator
O levantamento também comparou as ocorrências com dados de chuva horária do Instituto Nacional de Meteorologia.
Nos dias em que o maior volume em uma hora ficou entre 5 e 10 milímetros, houve pelo menos uma ocorrência de alagamento em 51,9% dos dias analisados.
Quando o volume ficou entre 10 e 15 mm por hora, a proporção chegou a 79,4%.
Na faixa de 20 a 30 mm, todos os 15 dias considerados na análise tiveram pelo menos uma ocorrência.
Entretanto, isso não significa que exista um volume único de chuva a partir do qual uma rua necessariamente alagará. Drenagem, relevo, impermeabilização do solo, localização e condições anteriores também interferem no resultado.
O próprio CGE alerta que períodos de chuva forte podem provocar alagamentos e transbordamentos e recomenda que a população evite circular por ruas alagadas ou enfrentar correntezas. Cgesp
Setembro de 2026 teve chuva acima da média
Os dados recentes do CGE também ajudam a mostrar a intensidade das chuvas enfrentadas pela capital neste mês.
Até 14 de setembro, São Paulo havia acumulado 211,6 mm de chuva, contra média mensal esperada de 66 mm, segundo o órgão municipal. Cgesp
Em 10 de setembro, por exemplo, o CGE colocou todas as regiões da capital, além das marginais Tietê e Pinheiros, em estado de atenção para alagamentos. Naquele episódio, a cidade registrou cerca de 22,7 mm de chuva, com 29,9 mm na Zona Sul e 18,9 mm na Zona Leste. Cgesp
Bases registram tipos diferentes de ocorrências
O estudo também comparou informações do CGE-SP com registros da Defesa Civil/SIGRC.
As duas bases possuem finalidades diferentes.
Os dados do CGE analisados estão mais relacionados a alagamentos que atingem vias e prejudicam o trânsito. O próprio órgão informa que seu sistema tem foco nas principais vias e corredores da cidade. Cgesp
Já os registros da Defesa Civil/SIGRC analisados pelo levantamento estão relacionados a situações de risco geo-hidrológico e ocupação.
Por isso, as duas listas apresentam diferenças. Entre os dez distritos com maior número de ocorrências em cada base, apenas o Itaim Paulista aparece nas duas.
Ao todo, o estudo cruzou 1.342 ocorrências do CGE-SP e 457 registros da Defesa Civil/SIGRC, além de informações do GeoSampa, Inmet, IBGE e dados de relevo.
O que fazer durante um alagamento
A orientação do CGE é não tentar atravessar ruas alagadas nem enfrentar correntezas.
Também é importante permanecer longe da rede elétrica e evitar ficar debaixo de árvores durante temporais. Em caso de dúvida sobre vias bloqueadas, a população pode procurar informações pelos canais oficiais.
O CGE informa os números 199 para a Defesa Civil, 192 para o SAMU e 156 para serviços e informações da Prefeitura. Cgesp
O que você precisa saber
São Paulo registrou 1.342 ocorrências de alagamentos em vias entre setembro de 2024 e setembro de 2026, segundo levantamento baseado em registros do CGE-SP. O cruzamento da Avenida Itaquera com a Rua Campinas do Piauí teve ocorrências em 15 dias diferentes, a maior recorrência identificada. A análise também encontrou 60 trechos com alta suscetibilidade e sem histórico relevante recente. Essa classificação indica características favoráveis à ocorrência de alagamentos, mas não funciona como previsão de que os locais necessariamente serão atingidos.
Perguntas mais frequentes
Quantas ocorrências foram analisadas?
O levantamento analisou 1.342 ocorrências do CGE-SP entre 23 de setembro de 2024 e 22 de setembro de 2026.
Qual foi o ponto com maior recorrência?
A Avenida Itaquera com a Rua Campinas do Piauí, na Zona Leste, com registros em 15 dias diferentes.
Qual subprefeitura teve mais ocorrências?
Segundo o levantamento fornecido, a Sé registrou 164 ocorrências distribuídas em 62 dias.
E na Zona Norte?
Santana aparece entre os cinco distritos com maior número absoluto, com 35 ocorrências no período analisado.
Os 60 novos pontos indicados certamente vão alagar?
Não. Eles foram identificados como locais de alta suscetibilidade pelo modelo utilizado no levantamento. Isso não representa uma previsão de que haverá alagamento.
O que significa um ponto intransitável para o CGE?
Significa que o acúmulo de água ocupa todas as pistas e impede totalmente a circulação de veículos. Cgesp
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