Como nascera esta grande empreitada de construir um palácio de verão e uma cidade serrana, para o onde foram trazidos os colonos germânicos? Quais sagas estes imigrantes recém-chegados viveriam pelas próximas gerações? Cada sobrenome foi deixando descendentes com variados caminhos pela sociedade que se formava, com profissões diversas em valiosas contribuições que ainda estão presentes e continuam frutificando.
À margem da estrada mineira, a fazenda do Padre Correias, em lugar de saudáveis ares na várzea do plácido rio Piabanha e no sopé da serra dos Órgãos, com sua bela paisagem alpina, era frequentada assiduamente pelo Imperador D. Pedro I, sua família e séquito. Atendendo aos pedidos de sua segunda esposa, a Imperatriz Da. Amélia, e sua infante princesinha Da. Paula de fraca saúde, propôs a compra da fazenda para atender ao seu projeto da construção de um palácio de verão. Da. Arcânjela, irmã e herdeira do padre, não aceitou vendê-la e indicou a vizinha fazenda do Córrego Seco, a montante do rio Piabanha, que estava à venda. A transação efetuou-se em 1830 (Diário de Petrópolis, 2012).
O palácio de verão e o núcleo urbano que poderiam ter sido erguidos num local mais propício, de clima mais seco, numa ampla várzea melhor de ser urbanizada e com melhores terras agricultáveis, (hoje Itaipava) tiveram que ser construídos numa maior altitude, com clima mais úmido e topografia mais acidentada. Só, muito mais tarde, com a engenhosidade do major engenheiro militar Frederico Koeler, contratado por Dom Pedro II, foi possível o planejamento de uma cidade nessas condições menos favoráveis. Teve ele que planejar os assentamentos nos vales ao longo dos cursos d’água. A pequena parte menos acidentada, pouco mais ampla e ensolarada, foi escolhida para o palácio de verão, para o centro administrativo e para residências dos componentes da corte e da aristocracia. Só o sopé das encostas mais suaves poderia ser ocupado com todos os cuidados na drenagem. Os rios nesta parte central foram canalizados retilíneos, as suas margens foram arborizadas, o arruamento foi feito nas duas margens dos canais e rios, afastando bem as residências de suas margens. Nas encostas e montanhas a vegetação original deveria ser preservada. Foram demarcadas glebas (prazos de terra) irradiando das ruas, mas apenas até a meia encosta. Os prazos de terra teriam no centro dimensões menores para serem destinados apenas a residências e negócios. Os mais afastados eram bem mais amplos para serem destinados a lavoura e criações. A área restante de relevo mais acidentado permaneceria como propriedade da casa imperial para manter preservada a cobertura vegetal.
A maior parte das famílias prussianas que foram trazidas para povoar a nova cidade e iniciar cultivo para abastecimento da Corte provinham de áreas mais apropriadas à agricultura na região da Renânia, na antiga Prússia, e tiveram dificuldade no plantio em terrenos tão acidentados. Por isso alguns colonos e até mesmo famílias, assim que tiveram condições, migraram para outras localidades no País.
Em 1845, num contrato com a Casa Charles de La Rue, de Dunquerque, vieram “13 navios que trouxeram 2.318 colonos, destes 75 faleceram antes de tomar destino, a maioria de febre tifoide; 106 seguiram para o Rio Grande do Sul; 26 permaneceram na Corte, e os restantes 2.111 foram para a projetada Petrópolis” (Auler, G., 1960). Em 26 de agosto chegava ao Brasil, no navio George, o colono Jacob Braun, sua esposa Anne Marie Lambert e seus filhos Peter, Jacob, Gustav e Adam, provindos da aldeia de Bickenbach nos altiplanos do interflúvio Reno e Mosela, na região da Renânia-Palatinado. Terras férteis e de baixo relevo, roubadas do antigo ecossistema Schwarzwalt (Floresta Negra) da qual restam apenas pequenos remanescentes, eram cultivadas para cereais e batata. Hoje Bickenbach é uma pequena cidade onde ainda são vistas as construções no velho estilo prussiano e cercada de plantações de mostarda num ondulante mar de flores amarelas (Fig. 2). Aqui na nova terra a família Braun recebeu mais dois filhos, Guilherme, em 1853 (no dia vinte de janeiro, dia de São Sebastião) e Maria Anna em 1855. Foi destinado a esta família o prazo de terra 2423 no quarteirão Vila Teresa (hoje uma vila em escadaria com o número 1141 da Rua Teresa). Seis mil metros quadrados com 60m de frente, com pequena área plana de cerca de seiscentos metros quadrados junto à rua e o restante numa íngreme encosta pedregosa e coberta de floresta, sem a mínima condição de cultivo. Os prazos de terra no quarteirão Vila Imperial e parte da Vila Teresa eram menores porque se destinavam mais ao estabelecimento de artesãos e comerciantes. Mais tarde a família mudou-se para o prazo 2223, onde hoje é a Rua Adão Braun, no fim da Rua Bartolomeu de Gusmão, que sobe do lado esquerdo da atual Rua Santos Dumont. Um novo prazo que não constava na planta original de Koeler. Este prazo era bem mais amplo com 75.000m² dos quais 30.000m² na várzea de um córrego e o restante em encosta bem inclinada que até hoje está coberta de floresta preservada (Fig. 3).
Os Braun descendem de um clã de judeus convertidos e não eram mormente campesinos, sendo mais pequenos burgueses como comerciantes, artesãos, mestres-escola ou administradores, embora na Prússia daquela época, mesmo os pequenos burgueses tornaram-se lavradores pela necessidade da própria subsistência. Nos meados do século XIX a Europa ainda tentava se organizar socialmente no rescaldo das grandes conturbações geopolíticas após a queda de Napoleão Bonaparte, tornando a vida bem difícil para grande parte da população. Esse cenário propulsor das grandes emigrações de europeus para o Novo Mundo é mostrado magnificamente no belo filme de Edgar Reitz “Die Andere Heimat” (A Outra Pátria) (REITZ, 2013). Aqui se conhece a chegada dos imigrantes e os motivos do Império em trazê-los para povoar nossos rincões virgens e substituir o trabalho escravo, mas o filme esclarece o outro lado da questão, como a dramática necessidade de abandonar definitivamente o solo pátrio e parte dos familiares, numa demorada e desconfortável viagem, atravessando um imenso oceano na busca de terras mais promissoras e totalmente por eles desconhecidas.
Como já foi referido acima, a inadaptação de certos colonos à terra da fazenda do Córrego Seco e a dificuldade de encontrar ocupação adequada às suas expectativas, os levou a sair em busca de novos horizontes. Assim o filho de Jacob, Gustav, saiu de Petrópolis em 1854 segundo registro no Instituto Histórico de Petrópolis, mas seu destino é ignorado. Muito provável que terá ido para as colônias alemães do Sul, destino de muitos ao aportar no Rio de Janeiro e que já tinham parentes ou conhecidos que para lá haviam se dirigido nas precedentes correntes migratórias ou talvez para São Paulo como emigrou também um sobrinho de Guilherme, Euclides Braun, que deixou descendentes que preservam até hoje este sobrenome.
Guilherme casou-se em Petrópolis, aos 21 anos, com aquela sua vizinha e amiga de infância, Maria Elisa Raeder, no dia 24 de janeiro de 1874. Consta no arquivo diocesano da catedral de São Pedro de Alcântara o sobrenome Reither que não figura nos minuciosos arquivos históricos de colonos de Petrópolis. Este nome seria um erro do celebrante ao ouvi-lo oralmente por parte das famílias dos nubentes. Os colonos falavam no dialeto Hunsrückich com pronúncia diferente do Alemão castiço que não era habitual para o povo alemão urbano. Desse enlace nasceu em Petrópolis, ainda em 1874 uma filha, Elisa, chamada familiarmente por Lieschen.
A partir de 1970 houve uma diminuição no ritmo de obras que produziu um aumento no desemprego. Para minimizar esta situação, o Governo Imperial estimulou a abertura de fábricas têxteis, sendo a primeira a Fábrica de Tecidos São Pedro de Alcântara no Quarteirão Renânia. Esta providência, contudo, não impediu a saída de colonos a procura de oportunidades mais adequadas às suas experiências profissionais.
Figura 1 – O poço ainda preservado. Figura 2 – Campos de mostarda de Bieckenbach. Figura 3 – Prazos de terra das famílias Raeder (à esquerda) e Braun (à direita). Assinalada a trilha original de acesso, hoje ocupada por rua. Posição original dos prazos extraída da segunda planta do projeto de Petrópolis de autoria do desenhista topógrafo Reimarus. Ele desenhou mais prazos do que a planta original de Koeler, dos quais muitos em áreas mais íngremes que não chegaram a ser ocupados pelos colonos. Note a preservação da floresta. Dados extraídos da planta do arquivo da casa da Princesa Isabel em Petrópolis.Imagem do Google Earth.




