Audiência pública nesta terça-feira (11) discute empreendimento com 39 galpões e mais de 117 mil m² de área construída no terreno onde funcionou o antigo MartCenter; moradores querem respostas sobre trânsito, drenagem, patrimônio histórico e impactos acumulados na região
Por Redação Gazeta da Vila Guilherme
A Vila Guilherme vive um momento importante de transformação urbana. Nesta terça-feira (11), moradores da Zona Norte têm a oportunidade de participar da audiência pública que vai discutir a implantação do Complexo Logístico Chico Pontes, empreendimento previsto para a área onde funcionou o antigo Shopping MartCenter, entre a Rua Chico Pontes e a Rua São Quirino.
A audiência, realizada pela Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente (SVMA), faz parte do processo de licenciamento ambiental do empreendimento e terá como foco a apresentação e discussão do Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA).
O encontro está marcado para as 17h, no CEU Parque Novo Mundo, na Avenida Ernesto Augusto Lopes, nº 100, no Parque Vila Maria. Além da apresentação dos estudos, a audiência permitirá manifestações e questionamentos da população.
Mas, para a Vila Guilherme, a discussão vai muito além da construção de novos galpões.
O empreendimento está inserido em uma região que já passa por uma transformação significativa, com a implantação de outros projetos logísticos de grande porte. Ao mesmo tempo, está próximo do Parque do Trote, área que possui proteção patrimonial municipal.
A pergunta que começa a ganhar força entre moradores é: qual será o impacto da chegada de dois grandes polos logísticos sobre o futuro da Vila Guilherme?
Uma área marcada pela história do MartCenter
O terreno onde o novo complexo está projetado não é uma área qualquer para os moradores da Vila Guilherme.
Durante décadas, o endereço da Rua Chico Pontes, 1.380, foi associado ao Shopping MartCenter, antigo centro atacadista de moda que funcionou na região até os anos 2000. O local se tornou parte da história econômica e urbana do bairro.
A antiga estrutura do MartCenter já foi objeto de processos relacionados à ocupação urbana e ao patrimônio. Em 2015, por exemplo, houve registro no Conpresp de pedido de demolição da estrutura existente no endereço. Também foram discutidos estudos de ocupação do entorno do Parque do Trote.
Agora, anos depois, a área volta ao centro de uma discussão sobre seu futuro.
O que está previsto no Complexo Logístico Chico Pontes?
O projeto está sob responsabilidade da CLMT 2 MART Center Empreendimento Imobiliário SPE Ltda., com estudos ambientais elaborados pela Jequitibá Meio Ambiente Ltda.
O processo administrativo é o SEI nº 6027.2026/0007302-8.
A proposta prevê a implantação de galpões destinados ao uso logístico compartilhado.
Na fase final, o complexo deverá contar com:
- 39 galpões;
- dois blocos;
- 117.075,71 m² de área construída;
- ocupação correspondente a 70,36% do terreno.
O pedido de Licença Ambiental Prévia envolve uma área localizada entre a Rua Chico Pontes, nos números 1.380 a 1.730, e a Rua São Quirino, 823.
Por se tratar de um empreendimento de grande porte, a Prefeitura determinou a elaboração do EIA/RIMA para avaliar seus possíveis impactos ambientais.
O impacto que pode ir além dos limites do terreno
Um dos principais pontos de atenção está no trânsito.
Um complexo logístico significa movimentação de mercadorias, veículos de carga, operações de entrada e saída, carga e descarga e circulação de funcionários e prestadores de serviço.
O problema é que o empreendimento não está isolado.
Na mesma região está sendo implantado outro grande polo logístico, o Centro Logístico Marginal Tietê, da Sanca Galpões, no terreno onde funcionou durante décadas a fábrica da Nadir Figueiredo.
O terreno possui aproximadamente 102 mil m², e o projeto prevê dois blocos com 27 galpões logísticos, além de estruturas para caminhões, carros, visitantes, portaria e monitoramento.
Isso cria uma questão que merece ser analisada de maneira integrada:
Como ficará o trânsito da Vila Guilherme quando os dois grandes empreendimentos estiverem funcionando?
O EIA/RIMA do Complexo Chico Pontes precisa analisar os impactos específicos do empreendimento. Porém, também é importante compreender o chamado impacto acumulado: o efeito provocado pela presença simultânea de diferentes empreendimentos sobre as mesmas vias, sistemas de drenagem e infraestrutura urbana.
Caminhões e circulação nas ruas do bairro
A circulação de veículos pesados é uma das questões que mais interessam aos moradores.
Ainda precisam ser esclarecidos, no material analisado, dados como:
- quantidade estimada de caminhões por dia;
- horários de maior movimentação;
- rotas de entrada e saída;
- impacto sobre a Rua Chico Pontes;
- impacto sobre a Rua São Quirino;
- reflexos nas demais vias do entorno;
- medidas previstas para evitar congestionamentos e conflitos com o trânsito local.
Essas informações são fundamentais para entender como o empreendimento poderá alterar a rotina de quem mora, trabalha ou circula pela região.
Drenagem: uma questão que não pode ser ignorada
Outro ponto importante é a drenagem.
Grandes empreendimentos significam aumento da área construída e pavimentada e, consequentemente, podem alterar a capacidade de absorção da água da chuva.
A região da Rua Chico Pontes já possui histórico de intervenções relacionadas à drenagem. Existe, inclusive, projeto municipal envolvendo sistemas de galerias e tunnel liner na Avenida Guilherme, entre a Rua São Quirino e a Rua Chico Pontes.
Por isso, uma das perguntas que precisam ser respondidas é:
Como o novo complexo irá interferir no sistema de drenagem existente e nas obras de infraestrutura previstas ou em andamento na região?
O projeto também deverá esclarecer quais medidas serão adotadas para reduzir os efeitos da impermeabilização do solo.
E o Parque do Trote?
Talvez essa seja uma das questões mais sensíveis.
O Parque do Trote está relacionado à história da antiga Sociedade Paulista de Trote e possui proteção patrimonial.
Segundo a documentação analisada, o Conpresp tombou, por meio da Resolução 15/CONPRESP/2013, a área pertencente à antiga Sociedade Paulista de Trote e seus remanescentes, estabelecendo também uma área envoltória de proteção.
Nos lotes diretamente tombados existem regras específicas, incluindo parâmetros relacionados ao gabarito, à permeabilidade do solo e à arborização. A resolução também estabelece uma área envoltória de proteção.
Isso, entretanto, não significa automaticamente que o empreendimento esteja impedido de ser construído.
A questão que precisa ser esclarecida é outra:
Onde exatamente está o empreendimento em relação ao perímetro tombado e à área envoltória?
Também será importante saber quais análises foram realizadas pelo Departamento do Patrimônio Histórico (DPH) e pelo Conpresp e quais medidas foram previstas para preservar os valores históricos, culturais, paisagísticos e ambientais protegidos.
Dois grandes polos logísticos na mesma região
A transformação da Vila Guilherme não acontece apenas com o Complexo Chico Pontes.
O segundo empreendimento, localizado na área da antiga Nadir Figueiredo, também representa uma mudança significativa na ocupação urbana.
O Centro Logístico Marginal Tietê prevê 27 galpões e uma estrutura voltada à circulação e operação logística.
A antiga área industrial também possui histórico ambiental. O terreno passou por processo de descontaminação monitorado pela Cetesb após a identificação de metais associados à antiga fabricação de vidro. O processo começou em 2018.
Com dois grandes empreendimentos logísticos avançando na mesma região, o planejamento urbano precisa considerar não apenas cada projeto individualmente, mas também seus efeitos combinados.
Uma audiência pública que precisa ouvir a população
Outro ponto levantado pela documentação é o próprio local escolhido para a audiência.
Embora o empreendimento esteja na Vila Guilherme, a reunião será realizada no CEU Parque Novo Mundo, na Vila Maria. O material analisado registra que o edital consultado não informa a razão dessa escolha.
A localização pode dificultar a participação justamente dos moradores diretamente afetados pelo empreendimento.
A audiência, portanto, é uma oportunidade para a comunidade apresentar questionamentos, pedir esclarecimentos e registrar suas preocupações.
10 perguntas que a audiência pública precisa responder
- Qual é a distância exata entre a área diretamente afetada pelo Complexo Chico Pontes e o perímetro tombado do Parque do Trote e sua área envoltória?
- Como o DPH e o Conpresp avaliaram a relação do empreendimento com o patrimônio histórico protegido?
- Qual será a altura dos galpões e das demais edificações?
- Quantos caminhões e veículos deverão circular diariamente no complexo?
- Quais serão os horários de maior movimentação de cargas?
- Quais serão as rotas de entrada e saída dos veículos e qual será o impacto sobre a Rua Chico Pontes, Rua São Quirino e vias próximas?
- Quais medidas serão adotadas para controlar os impactos sobre drenagem e impermeabilização do solo?
- Haverá remoção de árvores ou alteração de áreas verdes?
- O EIA/RIMA considerou os impactos acumulados com outros empreendimentos logísticos existentes ou previstos na Vila Guilherme?
- Por que a audiência pública foi marcada na Vila Maria, e não em um equipamento público da própria Vila Guilherme?
O que você precisa saber
- O Complexo Logístico Chico Pontes está previsto na área onde funcionou o antigo MartCenter.
- O projeto prevê 39 galpões em dois blocos.
- A área construída prevista é de 117.075,71 m².
- O empreendimento ocupará aproximadamente 70,36% do terreno.
- A área fica próxima ao Parque do Trote, que possui proteção patrimonial.
- A região também recebe outro grande empreendimento logístico.
- Trânsito, circulação de caminhões, drenagem, impermeabilização, arborização e patrimônio estão entre os principais pontos que precisam ser esclarecidos.
- O EIA/RIMA será uma das principais referências para avaliar os impactos ambientais do projeto.
- A audiência pública é parte do processo de licenciamento ambiental.
- A documentação analisada ainda não responde integralmente a todas as questões levantadas nesta reportagem.
Perguntas mais frequentes
O antigo MartCenter dará lugar ao Complexo Logístico Chico Pontes?
O projeto está previsto para a área onde funcionou o antigo MartCenter, entre a Rua Chico Pontes e a Rua São Quirino. A proposta atual é de implantação de um complexo de galpões logísticos.
Quantos galpões serão construídos?
O projeto prevê 39 galpões, distribuídos em dois blocos.
Qual será o tamanho do empreendimento?
Na fase final, a previsão é de 117.075,71 m² de área construída, ocupando 70,36% do terreno.
O projeto fica dentro do Parque do Trote?
O material disponível não permite afirmar isso. A questão é justamente verificar a localização exata do empreendimento em relação ao perímetro tombado e à área envoltória de proteção.
Por que o trânsito preocupa?
Porque a operação logística envolve circulação de veículos de carga e o empreendimento está em uma região que também recebe outro grande polo logístico. O impacto acumulado sobre as mesmas vias precisa ser avaliado.
O empreendimento pode afetar a drenagem?
Essa é uma questão que precisa ser esclarecida no processo. Grandes áreas construídas e pavimentadas podem alterar a absorção da água da chuva, e a região já possui histórico de intervenções de drenagem.
A população pode participar da audiência?
Sim. A audiência pública integra o processo de licenciamento ambiental e também é espaço para esclarecimentos e manifestações da população.
Qual é a principal questão para a Vila Guilherme?
Mais do que discutir apenas a construção dos galpões, a comunidade precisa entender como a implantação de dois grandes polos logísticos poderá transformar o trânsito, a infraestrutura, o meio ambiente, a paisagem e a dinâmica urbana da Vila Guilherme.
A pergunta que fica para a Vila Guilherme
A antiga área do MartCenter está prestes a ganhar uma nova função.
A questão não é apenas se a região será transformada em um polo logístico. A transformação já está em curso.
O verdadeiro debate é como essa transformação será feita, quais serão seus impactos e quais garantias a população terá de que infraestrutura, trânsito, meio ambiente e patrimônio histórico serão considerados no processo.
A audiência pública desta terça-feira representa, portanto, um momento importante para que os moradores conheçam o projeto, questionem os responsáveis e participem da discussão sobre o futuro do bairro.
A Vila Guilherme não está apenas diante de um novo empreendimento imobiliário. Está diante de uma possível mudança no próprio perfil urbano de uma das regiões tradicionais da Zona Norte.
E essa mudança precisa ser discutida com quem vive nela.
Jornal da Região:
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