Chegando a Vila de Paraíba do Sul, a diligência parou na porta da pensão. Um prédio longo de alvenaria, com alto alicerce de pedras à beira do rio. Ao descer Guilherme reparou numa carroça no largo da entrada. No interior, uma saleta servia de recepção seguindo-se uma ampla sala de jantar. Desta seguia um longo corredor pelo qual se alinhavam vinte quartos de hóspedes. Dez deles com as janelas voltadas para o rio. Com a chave do penúltimo desses quartos, Guilherme entrou e logo se dirigiu à janela, abrindo-a descortinou a bela paisagem dos canais e compridas ilhas pedregosas do caudaloso Paraíba. O sol começava a se pôr transversalmente a sua esquerda refletindo-se numa miríade de luzes avermelhadas pelas cristas das ondulações da correnteza. A visão o transportou a sua casa lembrando-lhe a constelação de vaga-lumes que ponteavam a beira do riacho nas noites de verão. A saudade já acendeu a nostalgia trazendo-lhe os olhos lacrimosos da sua Elisa ao se despedir. Assolou-lhe a dúvida da decisão, porém logo a afastou na certeza que conseguiria dias mais frutuosos para a família recém-formada. Voltou ao interior do quarto, bebeu a água fresca da moringa e banhou rosto e braços com a costumeira jarra e bacia, preparando-se para descer ao jantar
que começaria a ser servido aos hóspedes. Antes de sentar-se, perguntou a dona da pensão onde poderia se banhar de corpo inteiro ao que um jovem português troncudo antecipou-se e disse que havia uma bica de água corrente nos fundos da casa, na beira do rio. Depois o mirou firmemente e perguntou: “vosmecê é o cunhado do Henrique Raeder?” Guilherme concordou e logo entendeu ser ele o dono da carroça. Logo começaram a conversar sobre o que fariam nos dias seguintes. Sabendo do que Guilherme pretendia, o carroceiro disse que ia buscar sacas de açúcar e de café em duas fazendas na Vila de Barra do Piraí onde sempre havia demanda de mão de obra.
No dia seguinte partiram ao alvorecer. Na primeira fazenda, enquanto arrumavam as sacas na carroça, Guilherme conversava com o encarregado do celeiro que lhe informou sobre obras de uma nova construção numa grande fazenda vizinha, onde poderia conseguir emprego em trabalho de alvenaria. Na carroça ainda havia espaço para mais sacas, assim os dois companheiros dirigiram-se para a fazenda indicada. Era de fato uma grande propriedade, há cerca de uma légua a sudeste da Vila. Um grande terreiro de café limitado a um lado pela longa construção da senzala e o começo de construção de mais dois galpões que fechariam os dois outros lados. Guilherme tinha de fato alguma experiência em obras de alvenaria por ter, como biscateiro, ajudado seus irmãos e o cunhado. O capataz gostou do seu porte e o apresentou ao patrão que o contratou. Pronto! A sorte logo lhe sorriu e ele se propôs a não decepcionar o proprietário. Seu empenho foi tal que o fazendeiro, após o término da obra, o destinou a participar das plantações e beneficiamento do café, começando aí a adquirir a experiência que lhe serviria muito mais tarde. Bem provável que nesta ocasião seu cunhado trouxera sua esposa e filha como havia prometido. Terá ficado nesta fazenda três ou quatro anos ou mais ainda, não se sabe ao certo, parece que um desentendimento com novo capataz o fez sair a procura de outras fazendas.
Depois da promulgação da Lei do Ventre Livre, começou, mesmo que timidamente, o crescimento do movimento abolicionista. Alguns fazendeiros começaram a alforriar escravos e procurar substituir por mão de obra paga, normalmente mais experimentada. Em Petrópolis a família imperial, principalmente a Princesa Isabel e o Conde d’Eu, apoiavam a fuga e acolhimento de escravos, no que eram ajudados pelos colonos prussianos que não tinham tradição escravista. Alguns fazendeiros dos arredores da Fazenda Imperial cediam escravos para trabalhar aos domingos na construção do palácio. Estes recebiam pagamento que serviria mais tarde para a compra da alforria (extraído do livro de registros contábeis da construção do Palácio Imperial de Petrópolis). Os últimos africanos de Petrópolis foram libertos meses antes da Lei Áurea. Guilherme não tratava mal os escravos que trabalhavam com ele o que irritava o novo capataz.
Ao sair da fazenda de Barra do Piraí, pode ter trabalhado em outras propriedades, porém só há relatos muito mais tarde quando ele já estava no Estado de São Paulo. Ali ele é apresentado ao proprietário de uma fazenda canavieira onde já começava o plantio de café, Cel. Jordão do Canto e Silva, casado com Maria Marques. Paranaense de abastada família da região de Castro onde era dono da fazenda Morungava (37 mil alqueires), herdada dos pais, e grande benfeitor da cidade de Itararé. Filho de Manoel Inácio do Canto e Silva e Maria Candida Novaes. Com a venda dessa fazenda à empresa madeireira americana Lumber, veio para São Paulo, onde comprou terras em Jacareí, na antiga vila de Parnaíba, hoje Santana do Parnaíba e em Campinas. Com o conhecimento adquirido da agricultura brasileira, Guilherme foi contratado passando a exercer a função de capataz, inicialmente na propriedade de Jacareí e depois na de Parnaíba. Poderia ter trabalhado ali por dez anos ou mais? Não se sabe. Em 1879 nasce o segundo filho com Maria Elisa (Elizabeth?) Raeder Braun, cinco anos após o casamento. Já estariam em São Paulo Capital? Já viviam na fazenda de Parnaíba? A não ser esta notícia, há um vácuo de relatos documentados até 1892.
Guilherme inicia uma nova vida bem diferente daquela de Petrópolis, onde até então ajudava seus irmãos na lavoura doméstica e nas construções. Sua índole desbravadora aberta para maiores tarefas, lhe abriria novos horizontes. Duas vidas mesmo, uma preservada na memória do modesto cenário familiar e outra em terras desconhecidas pela família Braun que em Petrópolis permanecera.

Foto – Única foto de toda família de Guilherme reunida. Foi enviada por ele ao sobrinho-neto Octavio Augusto Braun (de chapéu no centro da foto). Da esquerda para a direita: Os filhos: Alfredo, Oscar, Ida, Maria Elisa, Marietta (Maria Cândida) com seu marido atrás, Amazonas, talvez Guilherme júnior, Octavio Augusto, talvez marido da Ida, Da. Maria Cândida com o nenê no colo, uma senhora não reconhecida, Eurídice com o marido e filha e Gilherme em destaque como sempre. Pode-se ver as árvores preservadas em torno da casa, uma parte do anexo e alguns carros.
Desta dicotomia nasceram controversas histórias que eram transmitidas aos descendentes de seus parentes que o apelidaram de “Tio Rico” ironicamente. Com os cuidados da cultura cafeeira, atuando na fazenda de Parnaíba, Guilherme tornou-se empresário na venda do produto em São Paulo Capital. A fazenda assim prosperou muito, ganhando com isso toda a admiração do Cel. Jordão. Passou, então, a ter uma residência na Capital, onde a esposa e sua filha Elisa que trouxera de Petrópolis, já nos primeiros anos da fazenda, preferiam ficar. Em 1892 o sobrinho, Adão Braun recém-casado com Helena Weber, foi convidado pelo tio a morar na fazenda. Este sobrinho era um exímio marceneiro e autodidata que levou vários livros. Mais letrado do que o tio, passou a fazer, além dos móveis da casa grande, a contabilidade da fazenda e de outros negócios do tio. No ano seguinte nasceu a filha do casal Braun, Noêmia Elisa, na fazenda de Parnaíba, uma robusta menina de cabelos ruivos.
Jornal da Região:
Vila Guilherme | Vila Maria | Parada Inglesa | Jardim São Paulo e Tucuruvi.
