Quando nasci, na Av. Angelina pelas mãos hábeis da Maria Parteira, o poste 57 já estava na Praça Oscar e me desejou muitas felicidades, assim como fez com todas as crianças que nasceram na Vila Guilherme.
Quando subi pela primeira vez as escadarias do Grupo Escolar Afrânio Peixoto, no prédio da Praça Oscar, o poste 57 curvou-se para todos os alunos que começavam a vida escolar, desejando-lhes bom estudo.
Quando o barbeiro Maneta colocou um alto-falante no poste de iluminação, em frente ao poste 57, este vibrava de emoção quando Mané, Vavá e Pelé marcavam gols na Copa do Mundo de 1958, vencida pela primeira vez pelo nosso Brasil.
O poste 57 cumprimentava, logo nas primeiras horas da manhã, os trabalhadores que pegariam o ônibus da linha 57 com destino ao Anhangabaú, para irem trabalhar.
O poste 57 presenciava a formação de casais de namorados e disfarçava o olhar quando aconteciam os primeiros amassos e beijos. Hoje muitos destes casais se uniram, e o poste 57 compareceu a todos os casamentos, nos quais desejou aos noivos prosperidade.
O poste 57 servia como referência para encontros de jovens que iam ao parque de diversões. Num sábado, estava eu ao lado dele, esperando pela Dirinha. Passado da hora marcada, impaciente, coloquei minha mão no poste 57. Este me falou: “Calma meu jovem, as mulheres sempre se atrasam”. Minutos depois, ele apontou em direção à padaria Izildinha e murmurou: “Olhe! a sua namorada está vindo. E como ela está linda!”
Sempre prestativo, o poste 57 indicava a direção dos endereços procurados pelas pessoas: a igreja da Anunciação, o armarinho do seu Jabur, a farmácia do seu René, a papelaria do seu Zezinho, o bar do Moreira e as escolas Toledo Barbosa e Santa Teresa. Até para os locais mais distantes como o zoológico do Agenor e a Sociedade Paulista do Trote, ele apontava o caminho.
Os jovens que estudaram no GECA da Vila Guilherme, no prédio da Praça Oscar, ao terminarem o ginásio foram estudar em bairros próximos. A separação dos antigos amigos foi inevitável. O poste 57, presenciando a debandada, desejou boa sorte a todos.
Ele, ali em seu lugar, na Praça Oscar, parecia saber o destino de cada um e que nem todos voltariam a visitá-lo.
Em 1973, quando me dirigi à Escola Estadual Afrânio Peixoto, no prédio da Rua Maria Cândida, para ministrar a minha primeira aula de desenho geométrico, mas com frio na barriga, foi o poste 57 que me acalmou, dizendo: “Não se preocupe, está nascendo um professor que ao longo do tempo, vai ser reconhecido pelo seu trabalho”.
Sem prévio aviso, o poste 57 sumiu!
A Praça Oscar perdeu seu encanto, seu charme e seu símbolo maior: o poste 57. Ele não mais podia sorrir para as pessoas e atender aos seus pedidos. As escolas já não recebiam alunos. A Praça apagou-se.
Em 2019, numa sorveteria localizada na Praça Oscar, os ex-alunos comandados por Edgard Martins, reuniram-se e começou a “busca” pelo sumido poste 57.
Em novembro de 2020, o desejo dos ex-alunos foi contemplado: recolocado no seu lugar de sempre, de onde nunca deveria ter saído, o poste 57 está lá, esperando a sua visita.
Crônica escrita pelo prof/escritor Amauri Martins, em 20/10/2020.
Jornal da Região:
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