Cultura Leste , como um grupo de produtores levou a periferia de São Paulo até os holofotes da Cultura na Cidade que nunca dorme

Allex Nascimento Últimas NOTÍCIAS Cultura - Por Amilton Ferreira São Paulo

Cultura Leste , como um grupo de produtores levou a periferia de São Paulo até os holofotes da Cultura na Cidade que nunca dorme

A música não vive apenas de palco e aplausos — ela se sustenta por uma cadeia invisível de encontros, esforços e pessoas que fazem a engrenagem girar. Nos bastidores, existe uma roda silenciosa, mas essencial, que impulsiona a arte e leva histórias cada vez mais longe.

Hoje, vamos iluminar uma parte dessa roda.

Um projeto que nasceu na Zona Leste de São Paulo — coração pulsante da maior metrópole do país — e que transformou a forma como a cultura independente encontra o seu público.

Essa é a história da Cultura Leste.
Um projeto que nasceu em 2009 — e, com o tempo, conquistou a cidade.

Como toda grande história, existe um começo… e existe um símbolo.

Em 2009, o que parecia ser apenas um blog carregava, na verdade, uma missão silenciosa: transformar a cena cultural da Zona Leste de São Paulo e levar a voz da periferia para além dos seus próprios limites — atravessando bairros, rompendo barreiras e alcançando o mundo.

E foi ali, nesse primeiro gesto, que surgiu também a sua identidade.

A escolha da borboleta como imagem do projeto no primeiro blog não foi um detalhe estético e nem um acaso— foi, desde o início, um manifesto.

A borboleta é transformação.
É travessia entre territórios.
É o que nasce pequeno, quase invisível… mas ganha o mundo com leveza, força e direção.

Assim como a Cultura Leste.
Cultura Leste é uma iniciativa independente de comunicação e produção cultural que nasceu na Zona Leste de São Paulo com o objetivo de dar visibilidade à cena artística periférica e democratizar o acesso à informação cultural na cidade.
Um dos seus principais diferenciais foi levar cultura diretamente ao público por meio do quadro “O que rola…”, exibido nas telas dos trens e estações do metrô e CPTM. Esse formato transformou o transporte público em um canal de difusão cultural, alcançando milhões de passageiros diariamente e conectando a população com eventos de música, teatro, exposições e atividades culturais espalhadas pela cidade.Com a expansão do projeto, a iniciativa passou a se chamar também Cultura na Cidade, ampliando seu alcance para todas as regiões da capital e região metropolitana, deixando de ser apenas um projeto focado na Zona Leste para se tornar uma agenda cultural urbana mais abrangente.

Alex Nascimento:
1.
“Como e quando esta ideia se tornou uma necessidade urgente da cidade, de se formar o grupo Cultura Leste ?”
Quando criamos o Blog (https://culturaleste.blogspot.com/) em 2009, graças a sua colaboração Allex, na região de são Mateus a gente já vinha fazendo um trabalho cultural com eventos em parcerias com várias emissoras de rádio FM desde 2004 Praticamente era única opção da galera mostrar os seus trabalhos, só que muito localizada.
2.
“A Cultura Leste nasce na periferia, onde a arte muitas vezes é invisibilizada.
Quais histórias, artistas ou encontros marcaram vocês a ponto de transformar essa iniciativa em um movimento cultural?”

Cara, quando estava trabalhando na Supervisão de Cultura em São Mateus em 2004 , apareceu uma senhorinha de uns 70 anos aproximadamente, sugerindo que nós como poder público ajudassemos o neto dela e amigos que tinham bandas de rock.
Eu como funcionário fiquei bem impactado com a situação e comecei a correria
Nasceu aí o 1ºFestival “Rock e Reggae Verão São Mateus” em dezembro de 2005.

3.
“Levar cultura para dentro do transporte público é quase um ato político.
Como foi romper as barreiras institucionais e conquistar esse espaço dentro do metrô, impactando milhões de pessoas todos os dias?”

Na verdade, eles nos acharam, na época eu estava na Casa de Cultura São Miguel quando recebi um telefonema da Band Outernet falando em parceria com a Tv minuto, fiquei foi meio perturbado e liguei para o Cacau Ras que já estava no grupo, rolou algumas reuniões com outros coletivos até que ficamos só nós até hoje.
Mais do que uma conquista pontual, trata-se da consolidação de um novo entendimento sobre os espaços públicos de circulação: lugares que também podem ser de encontro, expressão e fruição cultural. Ao integrar a programação artística ao fluxo diário da cidade

4.
“O quadro ‘O que rola…’ virou um guia vivo da cidade.
Como vocês escolhem o que entra nessa curadoria — e qual é o peso da responsabilidade de influenciar o olhar cultural de São Paulo?”

Esse processo é muito guiado por inquietação. A gente busca o que está pulsando, o que está acontecendo fora do óbvio, o que ainda não chegou nos grandes circuitos. Tem um cuidado grande em equilibrar o que já é conhecido com o que precisa ser visto — principalmente quando falamos de cultura popular, periférica e independente.

E em uma cidade como São Paulo, isso tem um peso enorme. Porque tudo acontece ao mesmo tempo, mas nem tudo ganha visibilidade. Então, no fundo, a curadoria também é um posicionamento: é sobre quais histórias a gente quer ajudar a contar.

Existe, sim, uma responsabilidade grande em influenciar o olhar cultural das pessoas. Mas a gente tenta encarar isso mais como compromisso do que como poder. Compromisso de ampliar repertórios, de provocar descobertas, de furar bolhas.

Porque, no fim, o “O que rola…” não quer só mostrar o que já está em evidência — ele quer revelar a cidade que ainda está sendo descoberta todos os dias.

5.
“A transição de Cultura Leste para Cultura na Cidade representa expansão, mas também transformação.
O que vocês ganharam — e o que tiveram medo de perder — ao sair de um território específico para abraçar toda a cidade?”

A gente ganhou fôlego. Ganhou a possibilidade de olhar para São Paulo como um organismo vivo, múltiplo, cheio de camadas. Passamos a acessar outras cenas, outros públicos, outras narrativas — e isso amplia muito o impacto do que a gente faz. Hoje, conseguimos ser ponte entre diferentes territórios, aproximar realidades que muitas vezes não se cruzam.

Mas junto com esse crescimento veio um medo real: o de perder a essência. Cultura Leste não era só um nome, era um posicionamento, um compromisso com um território, com uma forma de fazer e de olhar a cultura. Existia — e ainda existe — uma preocupação constante em não diluir essa origem, em não deixar que a ampliação apagasse aquilo que nos formou.

Por isso, a transformação nunca foi sobre sair da Zona Leste, mas sobre levá-la junto. O território continua sendo referência, continua sendo bússola. É ele que orienta nossas escolhas, nossa curadoria, nossa forma de ocupar a cidade.

No fim, Cultura na Cidade nasce desse equilíbrio: crescer sem romper com as raízes. É entender que dá para expandir sem deixar de lado o compromisso com as bordas, com a cultura popular, com quem sempre fez muito com pouco. E talvez seja justamente isso que dá sentido a essa mudança — não é sobre ir mais longe, é sobre alcançar mais gente sem esquecer de onde tudo começou.

6.
“Depois de tantos anos conectando pessoas à arte, à música e à experiência urbana…
qual é o legado que vocês acreditam estar construindo — e que tipo de cidade vocês esperam deixar como resultado desse trabalho?”

o que a gente percebe é que o legado não está só nos eventos realizados, mas nas conexões que ficaram. Está nas pessoas que passaram a ocupar mais os espaços culturais, nos artistas que encontraram visibilidade, nos encontros que só aconteceram porque alguém teve acesso a uma informação no momento certo.

O que a gente constrói, aos poucos, é uma cultura de acesso. Uma ideia de que a cidade — especialmente uma cidade como São Paulo — pode e deve ser vivida por todos, em toda a sua diversidade. Quando alguém atravessa a cidade para ver um show, descobre um artista da periferia ou se reconhece em uma manifestação cultural, isso já é transformação.

Existe também um legado mais silencioso, que é o de mudar a forma como as pessoas enxergam a própria cidade. De sair de uma lógica de distância e exclusão para uma lógica de pertencimento. De entender que cultura não está só nos grandes centros, mas nos bairros, nas ruas, nas margens, nos encontros cotidianos.
“A cidade que a gente quer deixar é aquela onde o acesso à cultura não seja exceção, mas regra.”

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