Por Prof. Roberta Oliveira
O QUE A ESCOLA TEM A VER COM AS EMOÇÕES?
Fui ao Rio de Janeiro para participar de um congresso sobre inteligência emocional e educação socioemocional. Voltei pensando ainda mais sobre o que significa educar.
Entre palestras, conversas, anotações e muitas reflexões, uma pergunta ficou ecoando em mim: O que a escola tem a ver com as emoções?
Talvez alguém responda rapidamente: “Mas escola não é lugar de aprender?”
Sim. É.
É lugar de aprender Matemática, Português, Ciências, História, Filosofia, Inglês…
Mas também é lugar de aprender a conviver. A esperar. A ouvir. A lidar com o não. A enfrentar uma frustração. A pedir desculpas. A reconhecer um erro. A confiar. A respeitar. A recomeçar.
E, para tudo isso, precisamos falar de emoções.
AS EMOÇÕES TAMBÉM ENTRAM NA ESCOLA
Uma das coisas que mais me marcou durante o congresso do LIV – Laboratório Inteligência de Vida foi perceber, mais uma vez, que as emoções não ficam do lado de fora do portão da escola.
Elas entram junto com cada aluno. Entram na mochila daquele estudante que passou a noite preocupado. Sentam ao lado daquele que está com medo de uma prova. Acompanham aquele que chegou triste. Aparecem na irritação de quem não conseguiu lidar com uma frustração.
Estão presentes naquele aluno que não consegue se concentrar porque alguma coisa, que talvez nem saibamos qual é, está ocupando todo o seu pensamento.
E também estão presentes na alegria, na amizade, na descoberta, na conquista e naquele sentimento tão bonito de pertencer.
Como, então, falar de aprendizagem sem falar de quem aprende?
Essa pergunta parece simples, mas muda muita coisa.
O QUE O COMPORTAMENTO ESTÁ TENTANDO COMUNICAR?
Na escola, muitas vezes, enxergamos primeiro o comportamento. “Ele está agitado.” “Ela não presta atenção.” “Ele não respeitou o colega.” “Ela está desmotivada.”
Mas talvez exista uma pergunta anterior:
O que esse comportamento está tentando comunicar?
Isso não significa passar a mão na cabeça. Não significa deixar de estabelecer limites. Muito menos significa que toda atitude inadequada deve ser aceita.
Pelo contrário.
A educação socioemocional nos ajuda justamente a compreender que podemos acolher uma emoção sem aceitar qualquer comportamento que venha dela.
Posso sentir raiva, mas preciso aprender a não machucar.
Posso sentir tristeza, mas posso aprender a pedir ajuda.
Posso sentir medo, mas posso descobrir maneiras de enfrentá-lo.
Posso errar, reconhecer meu erro e tentar fazer diferente.
E talvez aqui esteja uma das maiores responsabilidades da escola: ensinar que sentir faz parte da vida, mas aprender a lidar com aquilo que sentimos também é uma aprendizagem.
O ERRO TAMBÉM FAZ PARTE DA APRENDIZAGEM
Durante o congresso, uma palavra apareceu nas minhas anotações e ficou comigo: ERRO.
E ao lado dela: necessário.
Que palavra difícil para uma sociedade que cobra tanto acerto.
Na escola, o erro muitas vezes aparece como algo que precisa ser corrigido. E, claro, precisa. Mas será que ele precisa ser visto apenas como fracasso? Talvez não.
O erro pode ser o começo de uma conversa. Pode ser uma oportunidade de reparar.
Pode nos ensinar sobre responsabilidade. Pode nos mostrar aquilo que ainda precisamos aprender.
Um erro não precisa definir uma pessoa.
Aliás, outra anotação do congresso dizia algo que achei muito bonito:
“Momento fotográfico, mas a vida é um filme. Não define o final.”
Pensei imediatamente nos nossos alunos da nossa educação brasileira.
Uma nota não define uma trajetória. Uma dificuldade não define uma capacidade.
Um conflito não define uma pessoa. Um dia ruim não define uma vida.
Somos processos. E talvez seja justamente isso que precisamos lembrar aos nossos alunos — e, às vezes, a nós mesmos.
A ESCOLA COMO ESPAÇO DE CONFIANÇA
A escola precisa ser um espaço de aprendizagem, mas também precisa ser um espaço de confiança.
Um lugar onde seja possível dizer “eu não sei”. Onde seja possível dizer “eu errei”.
Onde seja possível dizer “eu estou com medo”. Onde seja possível pedir ajuda.
Onde seja possível tentar novamente.
E fiquei pensando em quantas coisas importantes só conseguimos aprender quando nos sentimos seguros o suficiente para perguntar, experimentar, errar e recomeçar.
É claro que a escola não substitui a família, a psicologia ou outros espaços de cuidado. Cada um tem seu papel e sua responsabilidade.
Mas a escola tem algo muito poderoso: ela é um dos lugares onde crianças e adolescentes passam grande parte de suas vidas.
É onde constroem vínculos. É onde enfrentam desafios.
É onde descobrem capacidades. É onde aprendem a conviver com pessoas diferentes.
É onde, muitas vezes, vivem suas primeiras grandes frustrações e também algumas de suas maiores conquistas.
MÓDULO 6 — EDUCAÇÃO SOCIOEMOCIONAL É PARTE DA APRENDIZAGEM
Por isso, quando falamos de educação socioemocional, não estamos falando de algo separado da aprendizagem.
Estamos falando de uma educação que olha para o estudante por inteiro.
O LIV – Laboratório Inteligência de Vida, programa que motivou grande parte das reflexões que trouxe desse congresso, trabalha justamente com essa proposta: criar, dentro da escola, espaços para que crianças e adolescentes possam olhar para si, compreender suas emoções, refletir sobre suas relações e desenvolver recursos para lidar com os desafios da vida.
E essa proposta encontra respaldo em pesquisas e organismos internacionais. A UNESCO reconhece a aprendizagem socioemocional como uma dimensão importante da educação, relacionada ao bem-estar, às relações, à capacidade de lidar com emoções e à construção de ambientes de aprendizagem mais seguros e inclusivos. O CASEL, referência internacional na área, organiza essas aprendizagens em competências como autoconsciência, autogestão, consciência social, habilidades de relacionamento e tomada de decisões responsáveis.
ENXERGAR ALÉM DO COMPORTAMENTO
Mas, para mim, depois desse congresso, tudo isso deixou de ser apenas conceito.
Virou pergunta. Virou reflexão. Virou olhar.
Porque, quando voltamos para a escola e encontramos aquele aluno que está inquieto, aquela turma que está em conflito, aquele adolescente que parece não querer ouvir ninguém, talvez possamos continuar estabelecendo os limites necessários , mas também podemos tentar enxergar um pouco além.
O que será que ele está sentindo? E mais importante:
O que podemos ensiná-lo a fazer com aquilo que está sentindo?
Talvez essa seja uma das grandes missões de uma escola verdadeiramente humana.
Não impedir que nossos alunos sintam. Não proteger nossos alunos de todas as frustrações.
Não construir uma vida sem problemas para eles. Mas ajudá-los a desenvolver recursos para atravessar a vida com mais consciência, responsabilidade, empatia e coragem.
EDUCAR É MUITO MAIS DO QUE TRANSMITIR CONHECIMENTO
Fui ao Rio para um congresso. Voltei com muitas anotações.
Mas, principalmente, voltei com uma certeza ainda maior:
educar é muito mais do que transmitir conhecimento.
É ajudar alguém a descobrir quem é, como se relaciona com o outro e o que pode fazer diante daquilo que a vida coloca em seu caminho.
Porque a escola ensina conteúdos. Mas também ensina encontros.
Ensina escolhas. Ensina convivência. Ensina recomeços. E, inevitavelmente, ensina emoções.
Afinal, antes de serem alunos, nossos estudantes são pessoas.
E talvez a pergunta não seja mais “o que a escola tem a ver com as emoções?”. “Como poderia a escola não ter?”
PARA QUEM QUISER APROFUNDAR
CASEL – Collaborative for Academic, Social, and Emotional Learning. CASEL’s SEL Framework: What Are the Core Competence Areas and Where Are They Promoted? 2020.
UNESCO. What you need to know about social and emotional learning. UNESCO, 2024/2025.
LABORATÓRIO INTELIGÊNCIA DE VIDA – LIV. Materiais e referências sobre educação socioemocional.
Essas referências ajudam a aprofundar uma reflexão que, para mim, começou no congresso, mas continua todos os dias dentro da escola.
Like
Love
Happy
Haha
Sad
Angry
Placeholder

Neuropsicopedagoga e graduada em Letras, Roberta Oliveira dedica sua vida à educação há mais de 30 anos. Atualmente é coordenadora pedagógica do Colégio Américo Melo , na Zona Norte de São Paulo, onde atua na formação acadêmica e socioemocional de adolescentes.Também realiza trabalho no Cursinho Popular e na ONG Prato Verde Sustentável reafirmando seu compromisso com a transformação social por meio da educação.
